A centelha de uma única cópia
O curta Frankenstein (1910), produzido pela Edison Manufacturing Company e dirigido por J. Searle Dawley, é uma das primeiras adaptações da obra Frankenstein, de Mary Shelley.
Com cerca de 12 minutos — duração padrão da época — o filme se apresenta como uma adaptação livre. Isso já indica seu caminho: menos fidelidade narrativa e mais interpretação.

A criatura antes do icônico corpo

Desaparecido durante décadas, Frankenstein (1910) teve uma existência quase fantasmática. Sobreviveu graças a uma cópia em nitrato preservada na coleção de Alois F. Dettlaff, um colecionador de Wisconsin. Mais tarde, a Library of Congress adquiriu a coleção, incorporou o material ao seu acervo e realizou uma restauração digital, devolvendo o filme à circulação pública.
Assim, o primeiro Frankenstein do cinema também participa da lógica de desaparecimento e retorno que atravessa sua própria história: como o monstro, ele some, sobrevive como vestígio e reaparece sob nova forma.
entre o horror e a rejeição


a cena em vermelho segue o livro, o Dr. Frankenstein depois do experimento vai dormir e sonha… acorda assustado com a criatura o observando e fica horrorizado
na azul, Frankenstein está expulsando a criatura depois dela arrastar Elizabeth do quarto para a sala








O monstro como projeção moral
O resultado não é um filme de terror como entendemos hoje, mas uma fábula visual sobre criação, consciência e descontrole.
Um dos aspectos mais radicais do filme está na forma como ele entende a criatura. As legendas deixam explícito: O mal do Dr. Frankenstein passa para a criatura!
Isso reorganiza completamente a narrativa, o monstro não é independente, não nasce neutro e não se corrompe depois. Ele já surge como manifestação do próprio criador.
Essa leitura aproxima o filme da tradição do duplo, como em O estranho caso do Dr Jekyll e do Mr Hyde, de Robert Louis Stevenson.
Nesse caso, a criatura espelha o criador e quase se confunde com ele. Vista retrospectivamente, a ideia também antecipa a noção junguiana de sombra (Tipos Psicológicos, 1921): os aspectos negados, reprimidos ou não reconhecidos da personalidade. No filme, esses aspectos se materializam na figura da criatura e persistem na imagem decisiva do espelho.
A cena do espelho — uma ideia em imagem
O uso do espelho tem um aspecto técnico e inventivo: resolve um problema de espaço cênico e, ao mesmo tempo cria um espaço virtual dinamizando a imagem captada de um único plano. A porta de entrada no espelho não funciona apenas como extensão do cenário, mas sobretudo como dispositivo simbólico. É por meio dela que o filme constrói a ideia do duplo, num jogo de inversões em que, a todo instante, criatura e Dr. parecem tornar-se a imagem um do outro. O filme transforma uma ideia abstrata, culpa e consciência em imagem direta.
Edison e a centelha invisível
Há uma ironia histórica poderosa no fato de Frankenstein (1910) ter sido produzido pela Edison Manufacturing Company.
Ou seja: o primeiro Frankenstein cinematográfico nasce dentro do universo de um inventor associado à eletricidade, às patentes, às máquinas e à industrialização da imagem, o filme não enfatiza ciência nem eletricidade.
Mesmo assim, o filme não transforma a criação da criatura em espetáculo elétrico. Pelo contrário: sua cena central parece alquímica, quase medieval, um corpo informe surgindo de um caldeirão, por meio de trucagem cinematográfica.
Se a centelha escapou de Edison, também não foi imaginada pelo diretor contratado. Ou seja, a dimensão alquímica do filme de 1910 pode ser menos uma limitação técnica ou conceitual do estúdio, e mais uma escolha estética e narrativa de J. Searle Dawley, ainda operando dentro de uma tradição moralizante e teatral e não como experimento científico.
A trucagem como linguagem
Para resolver visualmente a criação, o filme utiliza uma técnica simples e engenhosa: um boneco é filmado sendo queimado, a película é invertida e o resultado mostra a matéria se organizando.
Essa solução insere o filme na tradição de Georges Méliès, mas com uma diferença que em Méliès o truque é o espetáculo e aqui o truque serve à ideia. O cinema começa a se tornar expressivo, não apenas mágico.
.

filme Frankenstein – 1910 restaurado

Um cinema entre dois mundos
Formalmente, o filme está em transição entre a herança teatral com a câmera fixa, a atuação gestual, cenários pintados e a invenção cinematográfica com seus efeitos visuais possibilitando transformações em construções simbólicas. Quase um cinema que ainda olha para o palco, mas já pensa em imagens.
O monstro antes do ícone
Interpretado por Charles Ogle, o monstro é irregular, instável e em decomposição, devido ao seu sumiço nem entrou na competição, mas teria alguma chance de ser o modelo icônico que se tornou o de Boris Karloff?


Deixe um comentário